Considerados alguns dos maiores desafios para as políticas públicas no Brasil, as pautas ligadas aos cuidados necessários com os neurodivergentes prometem ganhar maior protagonismo nas eleições deste ano. Entre tentativas de criação de partidos e a consolidação de instituições ligadas aos interesses desse estrato da população, surgem candidatos que se propõem a fazer uma defesa mais qualificada dessas necessidades. A legitimidade seria a própria experiência. 

De acordo com o último Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2022, 2,4 milhões de pessoas foram diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que equivale a 1,2% da população. Em Goiás, foram 75 mil diagnosticados - 1,1% dos goianos. 

“Esse número certamente aumentou, porque as técnicas de diagnóstico evoluíram de 2022 para cá”. Quem afirma é o empresário do setor de Transporte de Senador Canedo Samuel Carvalho. Diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), o empreendedor é pré-candidato a uma vaga na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). Entre suas principais bandeiras está, justamente, a defesa dos interesses da população neurodivergente em Goiás. 

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Educação inclusiva

O pré-candidato destaca, entre suas principais preocupações, as deficiências perceptíveis no processo de desenvolvimento dos neurodivergentes no setor educacional. Ainda segundo o último Censo, metade dos diagnosticados com TEA com mais de 25 anos não concluíram o ensino fundamental. 

“É óbvio que temos aí um gargalo. Eu fui aluno da rede pública de ensino, e sei como é difícil concluir qualquer etapa da formação quando não se tem uma estrutura adequada e um pequeno e limitado número de profissionais devidamente habilitados para lidar com alunos neurodivergente”, pontua Carvalho. 

Uma outra preocupação apontada pelo empresário é o nível de desenvolvimento de programas destinados a prover o adequado tratamento e desenvolvimento da população neurodivergente. “Quase que a única alternativa que existe nos dias de hoje são os planos de saúde, que impõem propostas de tratamento padronizadas e, na sua maioria, ineficazes. É preciso que nos esforcemos para estabelecer uma rede no campo da Saúde Pública que venha a oferecer tratamento adequado”, salienta. 

Sob o ponto de vista institucional, há uma tentativa de registro de um Partido do Autista (PA), recentemente criado no estado de São Paulo. No momento, a postulante a legenda busca assinaturas para registro junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em Goiás, o PA tem até mesmo presidente regional: o ex-prefeito de Goiânia, Rogério Cruz. Não é um início fácil, dada a inevitável transferência de desgaste, para o “candidato a partido”, do ex-chefe do Executivo Goianiense, cujo final de mandato foi marcado por escândalos de corrupção e ineficiência na gestão da máquina pública na capital. 

“Nós já caminhamos bastante. Hoje em dia existe uma legislação específica (Lei Federal nº 12.764, apelidada de “Berenice Piana”), programas educacionais já planejados e um ensaio de programas no campo da saúde pública. Porém, há um longo caminho de adequação e aperfeiçoamento pela frente. E esse caminho passa por começar a ouvir quem verdadeiramente sofre com as dificuldades que existem”, afirma Samuel.