O MasterChef é um programa culinário criado pela emissora britânica BBC em 1990, e hoje é uma atração mundial adaptada em mais de 40 países. No Brasil, o reality show tornou-se famoso no formato televisivo, com a primeira temporada exibida em 2014. Hoje, o programa também ganha espaço no online, sendo que o canal do YouTube já acumula mais de 6 milhões de inscritos, e publica novos episódios semanalmente.

No episódio 07, os participantes foram separados em dois grupos para uma prova, cada equipe liderada por um capitão. Aline Oliveira, uma dona de casa de 35 que sonha em viver de culinária, foi definida como capitã por ter sido destaque positivo no episódio anterior. No entanto, nem toda bagagem é boa: a participante já tinha sido líder anteriormente, de um time que foi perdedor. Entre seus adversários, a competidora é vista como uma capitã ruim.

No momento da reunião para definir qual seria o cardápio executado na prova, que tinha como tema a culinária chinesa, o time começou a discordar das ideias da capitã, que tinha pouca experiência para a cozinha oriental. Aline sugeriu pratos que, na opinião do time, não representavam a cultura chinesa, e a capitã não conseguiu defender seus argumentos.

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“A Aline parece bem perdida, e uma equipe com um líder perdido eu fico bastante preocupada”, declarou Carla Araújo, uma das integrantes da equipe, que acabou tomando as rédeas do planejamento e delegando funções para os outros, enquanto Aline somente observava.

“Novamente ficou o que a Aline demonstra: insegurança total e não sabe liderar” diz Jesuíno Donny, outro integrante do time. No final, o time de Aline foi, pela segunda vez, derrotado. A decisão foi dos convidados da comunidade chinesa de São Paulo, que degustaram os menus preparados, e a votação ficou em um placar de 4 a 26. 

Aprendizados sobre liderança

Liderança costuma ser associada ao mundo corporativo. No entanto, ela se manifesta em qualquer ambiente onde pessoas precisam trabalhar juntas em direção a um objetivo comum. Para o consultor em gestão e desenvolvimento humano Rubens Berredo, autor do livro Liderança como Estilo de Vida (Editora Kelps), o episódio 7 do MasterChef Brasil 2026 mostrou exatamente isso.

Na prova em equipe, ficou evidente que ocupar a posição de líder não garante, por si só, a capacidade de liderar. Ao longo da prova, surgiram comportamentos que oferecem importantes lições para qualquer líder.

 

  • O cargo não produz liderança; o comportamento, sim.

 

Aline recebeu a função de capitã. Entretanto, rapidamente a equipe percebeu sua insegurança diante de um tema que dominava pouco. “Quando o líder transmite dúvida, a equipe também perde confiança. É exatamente por isso que a autoridade formal possui limites. As pessoas obedecem ao cargo, mas seguem quem inspira confiança”, pontua Rubens.

Em seu livro, Liderança como Estilo de Vida, o autor defende que a liderança começa muito antes do cargo. “Ela nasce do caráter, da preparação, da coerência e da capacidade de influenciar pessoas, o que se colocam à prova em cenários distintos: seja no mundo corporativo, seja na condução de uma equipe de cozinha”, diz o especialista.

 

  •  Segurança gera confiança.

 

Em análise, Berredo afirma que o problema não era Aline desconhecer profundamente a culinária chinesa, mas sim não conseguir conduzir o grupo apesar dessa limitação. “Nenhum líder conhece tudo. Grandes líderes reconhecem quando não dominam determinado assunto, fazem perguntas, escutam especialistas e transformam o conhecimento da equipe em vantagem competitiva. Assim, torna-se de grande valia a humildade do líder em reconhecer suas fraquezas, apoiando-se em sua equipe para que o time consiga caminhar”.

 

  • Quem perde a condução,  perde a liderança.

 

Um dos momentos mais marcantes da prova foi quando Carla passou a organizar o planejamento e distribuir atividades enquanto a capitã apenas observava. Na prática, ocorreu uma transferência natural de liderança, e isso acontece diariamente dentro das empresas. “Quando o líder deixa de oferecer direção, alguém ocupa esse espaço. Nem sempre por ambição, mas porque as equipes precisam de clareza para continuar avançando. A influência não espera autorização: ela acontece naturalmente. Assim, é de extrema importância que o líder seja capaz de se posicionar diante de sua equipe, garantindo sua capacidade de conduzir e engajar, de maneira confiante, objetiva e respeitosa”.

 

  •  Liderar é tomar decisões, mesmo sob pressão.

 

Em seu livro, Rubens Berredo defende a tese de que cenários desafiadores não são definitivos para o desempenho de uma equipe. No MasterChef, o relógio corre, os recursos são limitados e os erros custam caro, obstáculos que, em contextos diferentes, também podem surgir no dia a dia das empresas. “É nesses momentos que devem prevalecer, nos líderes, competências como equilíbrio emocional, capacidade de decisão, comunicação clara e priorização de tarefas mais importantes. Com esses atributos, a credibilidade para com a equipe cresce, e o trabalho se torna mais harmônico”, analisa o autor.

 

  • Credibilidade é construída antes da crise.

 

A resistência da equipe à liderança de Aline não surgiu naquela prova, visto que a participante já carregava o histórico de uma liderança anterior mal sucedida. Assim, para o especialista, fica evidente que credibilidade é construída diariamente. “Cada passo fortalece ou enfraquece a confiança que as pessoas depositam em um líder, e o momento de crise apenas revela o nível de confiança que já existe. No final, os melhores líderes não são lembrados pelo cargo que ocuparam, mas sim pela confiança que despertaram e pelas pessoas que ajudaram a crescer ”, afirma Rubens.