A função da imprensa é simples, mas essencial: informar. Em especial quando se trata da gestão pública, seja em prefeituras, câmaras municipais ou governos estaduais. Quando problemas são expostos, o objetivo não é atacar, mas dar visibilidade às demandas da população e pressionar por soluções.

Em Valparaíso de Goiás, no entanto, esse papel tem encontrado resistência. Jornalistas independentes relatam um cenário de pressão após a publicação de matérias críticas à gestão pública local. Segundo esses profissionais, ao invés de responder às denúncias ou apresentar esclarecimentos, a reação tem sido judicial.

O caso envolve o ex-prefeito Pábio Mossoró, que atualmente se posiciona como pré-candidato a deputado estadual. De acordo com relatos, ações por difamação, calúnia e injúria vêm sendo utilizadas contra jornalistas e influenciadores da cidade, o que levanta um debate importante: até que ponto o uso da Justiça representa defesa legítima e quando passa a ser uma tentativa de intimidação?

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A situação ganhou ainda mais repercussão após o portal Agita Goiás publicar uma reportagem destacando um possível “clima de intimidação” contra a imprensa independente no município.

O ponto que mais chama atenção é a contradição. Enquanto processos são movidos contra comunicadores, o próprio ex-prefeito publicou em suas redes sociais um banner defendendo a valorização dos jornalistas e a liberdade de imprensa. Para profissionais da área, a mensagem soa distante da prática.

Outro aspecto que entra no debate envolve a atuação de um escritório de advocacia ligado aos processos. Segundo dados do Portal da Transparência, esse mesmo escritório teve contrato com a prefeitura durante a gestão iniciada em 2017, com valores que somam cerca de R$ 408 mil em serviços de assessoria jurídica.

Ainda conforme os registros, houve contratação por dispensa de licitação, no valor aproximado de R$ 171.600, para prestação de serviços de consultoria jurídica diretamente ao gabinete do prefeito. A contratação levanta questionamentos, já que o município conta com procuradoria própria, responsável por defender os interesses da administração pública.

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Tudo bem que tenha sido feito esse contrato com um escritório, mas, em 2017, havia ampla oferta desse tipo de serviço no mercado, possivelmente com valores mais baixos, o que levanta o questionamento sobre a busca pela economicidade no uso do dinheiro público.

Em 2017, os valores para dispensa de licitação eram regidos pela Lei nº 8.666/1993. Os limites, com base no art. 24, incisos I e II, eram de até R$ 33.000,00 para obras e serviços de engenharia e até R$ 17.600,00 para compras e outros serviços. Esses valores foram posteriormente atualizados pelo Decreto nº 9.412/2018, mas, à época, servem como parâmetro para avaliar a contratação realizada.

Diante disso, os números envolvidos no contrato chamam atenção e ampliam o debate sobre a necessidade e a forma como esse tipo de serviço foi contratado.

Agora, o mesmo escritório volta ao centro da discussão ao atuar em ações judiciais contra jornalistas locais e influenciadores digitais, o que reforça críticas sobre possível uso de estrutura jurídica para pressionar vozes críticas.

Especialistas apontam que, em situações de discordância com conteúdos jornalísticos, o caminho mais equilibrado é o direito de resposta, instrumento garantido por lei. A judicialização, embora legítima em alguns casos, quando usada de forma recorrente pode gerar efeito intimidatório, principalmente sobre profissionais independentes.

O episódio reacende um debate mais amplo sobre liberdade de imprensa no Brasil, especialmente fora dos grandes centros, onde jornalistas muitas vezes atuam com menos proteção e maior exposição a pressões políticas e econômicas.

No fim das contas, a questão que fica é direta: a Justiça está sendo usada para garantir direitos ou para silenciar críticas?

A resposta não depende apenas dos envolvidos, mas da sociedade, das instituições de fiscalização e do próprio compromisso democrático com a liberdade de expressão.