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Na véspera do Dia do Professor, celebrado neste 15 de outubro, educadores no país enfrentam um cenário cada vez mais complexo dentro das salas de aula. Com o avanço das redes sociais, a hiperestimulação digital e os impactos do isolamento sócio emocional ocasionado pelas telas, crianças e jovens têm apresentado comportamento mais arredio, disperso e desafiador tanto em sala de aula quanto no ambiente familiar.
Segundo levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no Brasil, os professores perdem, em média, 21% do tempo de aula para manter a ordem em sala. Ou seja, a cada cinco horas de aula, uma hora se perde para conseguir prender a atenção dos estudantes. O dado é da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) de 2024. O estudo foi comparado entre 53 países.
Para Rubens Berredo, especialista em formação de líderes e autor do livro Liderança Como Estilo de Vida, conquistar o respeito e o engajamento dos alunos exige muito mais do que o título de docente. “A verdadeira autoridade em sala de aula precisa ser construída cotidianamente por meio da coerência, da postura e do preparo profissional”, diz Rubens. Para ele, o professor talvez seja a maior figura de influência sobre o futuro das pessoas.
Rubens é enfático ao dizer que o respeito da turma não é uma garantia automática vinculada apenas à função ou ao cargo ocupado. "Às vezes, eu posso até ter o cargo de professor a que se deve respeito, mas se a minha postura não for condizente com a profissão, eu perco a credibilidade”, pondera o especialista, destacando que o professor precisa ter boa conduta, agir com respeito, com ética e ter postura profissional.
Na prática, comportamentos ríspidos e a falta de escuta ativa figuram entre os principais fatores que afastam os estudantes. Posturas como arrogância, grosseria, a ausência de humildade e uma comunicação não verbal ruim criam um ambiente hostil.
Com mais de 46 anos de experiência na lida direta com alunos, Rubens diz que o professor deve ter um tom de voz agradável e ser simpático. “Isso porque muitos profissionais infelizmente entram em sala com a ‘cara fechada’, o que também mina a imagem deles perante a classe“, diz.
Sucesso profissional
Rubens enumera as qualidades de um professor que terá sucesso na carreira e com a turma. “Ao chegar, chegue com humildade, empatia, com respeito, convicção, firmeza, segurança e interesse. Olhe no olho das pessoas, respeite cada um, que cada um trouxe seu ponto de vista. Conheça a sua turma, conheça seus liderados, conheça seus alunos, para que você possa emitir comportamentos apropriados à turma que está junto de você. Porque cada turma é uma turma diferente”, conclui.
Ao equilibrar postura profissional, autodomínio e empatia, os professores não apenas dão conta dos desafios da juventude conectada, mas constroem uma autoridade legítima e inspiradora. O resultado é uma sala de aula onde o conhecimento deixa de ser uma imposição e passa a ser um processo colaborativo, leve e transformador para a vida inteira do aluno.
Agressividade versus Escuta Ativa
Empatia é o segredo do professor de matemática Guilherme Almeida Guedes, 24, para garantir a atenção e disciplina dos alunos. Ele conta que um jovem do 8o ano era extremamente agressivo e discutia muito com os demais professores. “Ele enfrentava a gente. E não gostava dos estudos de forma nenhuma. Aí, aos poucos eu fui me aproximando”, conta.
Guilherme disse que a estratégia foi aproximar-se com paciência. “Fui conversando com ele. Para descobrir coisas que ele gostava. Contei para ele um pouco da minha história. Do meu trabalho. De onde eu tinha começado. Foi quase um ano e meio lutando com esse menino e, dentro desse prazo, ele começou a ceder”, relata.
Com o tempo, o rapaz que era extremamente complicado tornou-se muito estudioso e dedicado “Ele era um aluno desmotivado, não se manifestava, talvez, por ele ser sempre taxado como mal comportado e ninguém nunca ter compreendido o lado dele”, disse Guilherme.
A história de Guilherme que mudou a trajetória rebelde do jovem aluno reside na superação de limites de aprendizado ainda na infância. O homem, que hoje é professor de matemática, foi uma criança com dificuldade na disciplina. A partir do olhar empático e atencioso de uma professora na época, ele superou suas barreiras.
“Exercícios básicos me assustavam. Mas ela foi me colocando para fazer desafios. Ela me acolheu e foi me aproximando do conteúdo. Ela não me taxou pelas minhas falhas de aprendizado. Acredito que o rapaz se identificou comigo neste ponto”, disse.
Com o tempo, Guilherme superou o que pensava ser impossível e decidiu seguir carreira na matéria que tinha maior dificuldade.
Hoje, o diretor do Instituição Educacional Guilherme de Almeida (IEGA) que oferece aulas de diversas disciplinas e cursos preparatórios, diz que essa experiência fez com que ele enxergasse seus alunos com mais empatia. “Eu procuro ter o respeito dos meus alunos. Um líder de verdade olha no olho do aluno. Ele acolhe, instrui e ensina. Ele se põe no lugar do outro”, diz.
Pilares de um líder em sala de aula
Outro ponto fundamental apontado por Rubens Berredo para lidar com as condutas comportamentais desafiadoras da atualidade é o conceito de autoliderança. Antes de tentar gerenciar a conduta dos alunos ou o clima de uma sala inteira, o profissional precisa dominar suas próprias reações e sentimentos. "Uma das coisas que a gente tem que repensar é que o líder vem antes da liderança. Ou seja, eu tenho que liderar a mim mesmo primeiro", defende o educador.
“Em vez de reagir por impulso e adotar punições imediatas ou confronto direto em público, a orientação é ouví-los e buscar entender os gatilhos emocionais que levam o jovem ao isolamento ou à postura confrontadora”, diz.
Berredo também faz um alerta fundamental sobre a saúde mental e a inteligência emocional do próprio educador. Diante de alunos hostis é essencial que o professor trabalhe o autocontrole para não personalizar os conflitos diários.
Rubens reforça que qualidades de líder podem ser aprendidas. “Se esse profissional realmente quiser mudar, é possível, mesmo que tenha personalidade hostil. A elegância profissional vence todos os obstáculos. Para aqueles que querem mudar a abordagem em sala, devem investir em cursos de soft skills (competências socioemocionais), oratória humanizada e inteligência emocional”, recomenda o especialista.
“Então, o professor tem que amar o aluno. Se ele é rebelde, é provável que tenha uma história por trás que precisa ser compreendida. O professor munido de piedade, consegue cativar, amar, conduzir a pessoa na direção que ele quer. No objetivo da evolução do aprendizado”, conclui Rubens.
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