Referência nacional em índices de aprendizagem, o estado de Goiás enfrenta agora o desafio de romper a barreira da estagnação no Ensino Médio Integral (EMI). Dados do Censo Escolar 2025 revelam que o estado entrou em uma zona de "platô", sem avanços significativos na oferta de escolas ou matrículas nos últimos três anos. Embora comemore o melhor IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do Brasil, a rede estadual parece ter pausado o ciclo de expansão do tempo integral, mantendo o modelo como uma oportunidade restrita a apenas uma parcela dos jovens goianos.

Desde 2022, a oferta de escolas em tempo integral em Goiás gira em torno de 25%, registrando seu máximo de 25,3% em 2025, um índice praticamente idêntico ao de três anos atrás. O cenário também se repete nas matrículas, que permanecem na faixa dos 17,5%. Os números acendem o alerta para a educação pública do estado: aceitar o bom desempenho atual sem expandir o EMI significa ignorar o potencial de crescimento dos estudantes, uma vez que as notas do IDEB, embora liderem o ranking nacional, ainda estão em um patamar abaixo do ideal quando se trata da competitividade e perspectivas dos jovens no futuro.

 

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O Ensino Médio Integral no Brasil

Em todo o país, o Ensino Médio Integral tem se consolidado cada vez mais como uma das políticas mais potentes de redução das desigualdades no país, entregando uma diminuição no abandono escolar e, consequentemente, o aumento de perspectivas mais positivas e novas chances para os jovens brasileiros sonharem mais alto sobre o seu futuro. Isso porque, mais do que ampliar o tempo em sala de aula, o EMI promove uma formação focada no protagonismo juvenil e no projeto de vida, com resultados sociais comprovados que mostram mais tempo de estudo e mais proficiência (aprendizado) que impactam diretamente em maior acesso ao Ensino Superior e, consequentemente, em maiores rendas no futuro.

Estudos e análises recentes mostram os benefícios que já estão sendo registrados ao longo dos últimos anos:

     Redução da violência: No estado de Pernambuco, o EMI reduziu em até 50% os homicídios de jovens de 15 a 19 anos em cidades que têm divisa com outros estados; O impacto é de 30 a 40% a menos nas taxas de homicídios ao longo de 10 anos.

     Saúde reprodutiva e equidade de gênero: a cada mil jovens no EMI, há 114 adolescentes grávidas a menos; +737 mulheres no ensino superior e +529 mulheres empregadas.

     Acesso ao mercado de trabalho: Um aumento de 10% nas matrículas no Ensino Médio Integral (EMI) no município gera, em média, um aumento de 3% nos empregos no setor formal do município, com impacto racial relevante: para estudantes pretos, pardos e indígenas, o efeito na geração de empregos é três vezes maior (4,5%) em comparação aos estudantes brancos e amarelos (1,5%). Em estados como o Ceará, o impacto da ampliação de matrículas EMI é ainda mais elevado, com uma expansão de até 9,8% nas admissões formais.

     Retorno x investimento: o benefício socioeconômico da política é seis vezes maior que o custo. Além disso, estima-se que o valor da remuneração recebida ao longo de toda vida produtiva de um jovem estudante que tenha acesso ao EMI será R$64 mil a mais em relação ao que ele receberia caso não tivesse tido acesso à educação integral.

O novo PNE e o desafio de Goiás para a próxima década

Recentemente, foi aprovado o novo Plano Nacional de Educação (PNE), que norteará as políticas públicas pelos próximos 10 anos. O plano define o ensino integral como política estruturante e estabelece metas claras para a universalização da oferta. Para Goiás, atingir essas metas exigirá sair da zona de conforto e transformar o EMI em regra, e não em uma exceção que beneficia apenas um em cada quatro estudantes.

Para romper o atual platô, o estado pode observar o exemplo de outras redes que não interromperam o crescimento após os primeiros sucessos, como Pernambuco (63% de oferta), Ceará (75% de oferta) e o Piauí, que universalizou o modelo em apenas quatro anos. O exemplo desses estados mostra que a qualidade (traduzida pelo IDEB) deve caminhar junto com a equidade (traduzida pelo acesso de todos). Em um momento de definição de prioridades, o desafio de Goiás é garantir que o melhor ensino do país chegue, de fato, a todos os seus jovens através da expansão do Ensino Médio Integral.

*Fonte: Censo Escolar (rede estadual) - escolas com oferta presencial de ensino médio. *Critério: Consideram-se, em tempo integral, as matrículas em jornada integral no critério INEP somente em escolas com ao menos uma turma com carga horária semanal igual ou superior a 35h.

**Estudos realizados em parceria pelo Instituto Natura, Instituto Sonho Grande e Centro de Evidências de Educação Integral do Insper